Não é exclusividade do futebol. Todo mundo vai parar um dia. Aposentar as chuteiras, raquetes, tênis, camiseta, joelheira, kimono…

Um artilheiro estava há algum tempo com essa dúvida entre um jogo e outro: qual é a hora de parar?

Toda vez que ele decidia que aquele seria seu último campeonato, ele marcava um, dois, três gols. O time chegava na final. Ganhava mais um. E aí era a torcida apaixonada, mídia animada, patrocinadores novos. E aquela sensação de que daria pra jogar mais um.

O contrato já não tinha mais multa rescisória, afinal, ele já tinha ficado mais do que a expectativa da nossa dirigente. Ela mesma já se sentia no lucro.

Cada vez que ele pensava em ter aquela conversa, mais uns gols, passes de letra, torcida apaixonada, mídia animada, patrocinadores novos.

Mas, quando ele dirigia de volta pra casa, sozinho, a vontade de parar surgia. Mil perguntas também. O que fazer? Vai dar certo? Quantos planos preciso ter? E se não der, posso voltar? Vou ter pra onde ir?

Dormiu aquela noite com essas dúvidas e acordou no dia seguinte pra tomar um café com a sua dirigente.

– Chefa, faz uns 3 campeonatos que eu já não sei mais. Não sei mais se aguento tanto, tem uma parte de mim que não quer mais, que já tá feliz com essa carreira. Mas, a cada gol, a cada taça, tem uma alegria que volta, uma adrenalina que me faz acreditar que ainda dá. Mais um…

– Eu sei, tava esperando pra gente ter essa conversa. Faz um tempo que te olho no campo, na hora do gol… a comemoração não é mais igual. Acho que ninguém percebe, porque tua entrega é especial, mas eu sei, te olhei no último jogo e não estavas mais.

– Eu achei que disfarçava bem, mas… não queria que percebessem. Eu realmente, acho que a hora chegou, mas não consigo engatar essa conversa.

– Querido, já viveste tantas coisas. Vitórias. Derrotas. És consagrado. E te digo, todos nós temos esse medo. A gente só viveu de um jeito até hoje. O Pelé foi muito ousado – e sábio – quando parou no auge, ninguém lembra de quem parou forçado, brigado, exausto. Mas, todos lembram dos que pararam com vida e alegria.

Ele sorriu. Ela terminou:

– E tens algumas opções por aí, te garanto. As portas daqui estarão sempre abertas.

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