Choro devagar porque já tive pressa. Tanta pressa que até o choro vinha enquanto eu fazia alguma outra coisa.

Cozinhava e chorava. Tomava banho e chorava. Colocava roupa na máquina e chorava. Um choro que eu nem me recordava o motivo. Aparecia no meio de alguma outra atividade, sem pedir licença. Pedindo pra ser sentido. Mas, nem isso eu conseguia.

Vinha o choro e eu nem parava. Vinha o choro e eu nem pensava. Vinha o choro e eu nem sentia. Vinha o choro. Eu enxugava. Respirava. Seguia. Seguia a atividade, a vida, a jornada.

Árida. Cansada. Apressada. Paralisada.

Um dia me dei conta que nem chorava mais. Nem me emocionava mais. Nem sentia mais. Como eu cheguei até aqui? Continuando. Seguindo. Correndo.

Não. Não podia mais. Chorar é sentir. Sentir da alma. Do fundo. Do todo. De mim. As lágrimas são a limpeza da vida. São a energia da vida que nasce. São o alívio da dor. São a alegria do sentir.

Parei. Respirei. Chorei. Emocionei.

Sinto, logo existo. Choro, logo vivo.

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